
Quando pensamos em desnutrição, é comum lembrar primeiro das consequências físicas: fraqueza, alterações hormonais, perda de massa muscular, mudanças cardiovasculares. Mas o cérebro também depende de energia e nutrientes para funcionar — e isso ajuda a entender por que, nos transtornos alimentares, o pensamento pode mudar junto com o corpo.
Na anorexia nervosa, por exemplo, a comida pode começar a ocupar cada vez mais espaço mental. A pessoa pensa no que vai comer, no que precisa evitar, em horários, quantidades, compensações, exercício, peso. Ao mesmo tempo, concentração e tomada de decisão podem ficar mais difíceis e, com o avanço da doença, o pensamento tende a ficar mais preocupado com comida e formas de evitá-la, enquanto a capacidade de se concentrar e decidir pode se prejudicar.
É um paradoxo importante: quanto menos o organismo recebe aquilo de que precisa, mais a alimentação pode dominar a mente.
Isso também ajuda a compreender algumas mudanças que, vistas de fora, podem parecer apenas rigidez, teimosia ou falta de força de vontade. Sair de uma regra pode parecer muito mais difícil. Uma mudança no horário da refeição pode gerar enorme ansiedade. Um alimento diferente do planejado pode parecer ameaçador. O pensamento tende a se estreitar, e perceber alternativas pode exigir muito mais esforço.
A desnutrição também pode afetar o modo como a pessoa percebe e regula as próprias emoções. No curto prazo, restrição pode até produzir uma sensação de anestesia emocional. Com o tempo, porém, a inanição aumenta a sensibilidade ao estresse e pode dificultar a leitura dos próprios estados emocionais e de outras pessoas.
Isso é clinicamente importante porque mostra que algumas reações intensas não acontecem apenas “porque a pessoa não quer mudar”. Em estados de maior desnutrição, tolerar incerteza, considerar outros pontos de vista, flexibilizar regras e tomar decisões pode se tornar genuinamente mais difícil.
Ao mesmo tempo, nem toda dificuldade cognitiva pode ser explicada apenas pela falta de nutrição. Algumas pessoas já apresentam, antes do adoecimento, características como perfeccionismo, atenção excessiva a detalhes ou maior necessidade de controle. A desnutrição pode intensificar esses padrões.
Por isso, recuperação nutricional e psicoterapia não são caminhos separados. À medida que o corpo volta a receber aquilo de que precisa, o cérebro também passa a ter melhores condições para se concentrar, aprender, sentir, decidir e flexibilizar. A psicoterapia segue necessária para trabalhar medos, regras, identidade, relações e os diferentes significados que o transtorno passou a ter naquela vida.
