O Transtorno da Compulsão Alimentar (TCA) é uma condição reconhecida pela psiquiatria e pela psicologia que vai muito além do ato de comer demais. Ele envolve aspectos emocionais profundos, padrões de comportamento aprendidos e, em muitos casos, alterações neurobiológicas relacionadas à regulação do prazer, da fome e das emoções.
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), o transtorno é caracterizado por episódios recorrentes em que a pessoa ingere uma quantidade de alimentos significativamente maior do que a maioria das pessoas comeria no mesmo período e contexto, acompanhada da sensação de perda de controle.
Para que seja considerado um transtorno, esses episódios precisam ocorrer, em média, pelo menos uma vez por semana durante três meses consecutivos, sem a presença de comportamentos compensatórios (como vômitos autoinduzidos ou uso de laxantes), que são característicos da bulimia nervosa.
Entendendo o comer compulsivo
Segundo as diretrizes da American Psychiatric Association (2023) e os estudos de Christopher Fairburn (2024), o comer compulsivo costuma estar associado a fatores emocionais complexos — como impulsividade, insatisfação corporal, histórico de dietas restritivas, ansiedade e depressão.
Muitas pessoas descrevem que a comida surge como uma tentativa de acalmar emoções intensas, preencher um vazio ou interromper sentimentos de angústia. É por isso que a compulsão alimentar não é um problema de força de vontade, mas um modo de lidar com o sofrimento psíquico.
Principais características da compulsão alimentar
Episódios recorrentes
Os episódios de comer compulsivo acontecem de forma repetida e podem ocorrer mesmo quando não há fome física.
Sensação de perda de controle
Durante o episódio, a pessoa sente que não consegue parar de comer ou controlar o que está comendo — mesmo que queira.
Sentimentos de culpa ou vergonha
Após o episódio, é comum que surjam sentimentos de culpa, vergonha ou arrependimento, o que pode reforçar o ciclo emocional do transtorno.
Comer rápido ou escondido
Muitas vezes, o comer ocorre de forma acelerada e solitária, como tentativa de evitar julgamento ou exposição.
Alívio temporário
A comida pode trazer um alívio momentâneo, mas não resolve o sofrimento emocional subjacente — o que leva a novos episódios.
Comer para sobreviver, sentir para existir
O comer compulsivo pode ser entendido como uma forma de comunicação do corpo quando as palavras falham. O corpo fala o que a mente ainda não conseguiu simbolizar. Além disso, Sophie Deram (2018) lembra que a relação com a comida é afetiva e aprendida desde cedo, e que dietas restritivas e culpa em torno da alimentação podem agravar o comer desregulado.
Assim, o tratamento precisa acolher o sintoma — não combatê-lo. Ele deve ajudar a pessoa a compreender o que está por trás da compulsão, reconstruindo uma relação de confiança com a comida e com o próprio corpo.
Recuperar-se é possível
O Transtorno da Compulsão Alimentar é uma condição séria, mas tratável.
O tratamento mais eficaz combina psicoterapia, apoio nutricional sem restrições punitivas e, quando indicado, acompanhamento médico. Abordagens como a Terapia Comportamental Dialética têm mostrado resultados significativos na regulação emocional e na redução dos episódios de compulsão.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza — é um ato de coragem e cuidado com a própria saúde mental. Com suporte adequado, é possível retomar o equilíbrio, reconstruir a confiança no corpo e redescobrir o prazer de comer sem culpa.
Se esse texto fez sentido para você, compartilhe ou deixe seu comentário — sua experiência pode inspirar outras pessoas no caminho da recuperação.
Até breve 🌿