Anorexia Nervosa: características e diagnóstico

Embora o debate sobre os transtornos alimentares tenha ganhado visibilidade nos últimos anos, a anorexia ainda é cercada de silêncio, incompreensão e sofrimento invisível — frequentemente mascarado pela aparência de autocontrole ou força de vontade.


Compreendendo a psicopatologia

De acordo com a American Psychiatric Association (2023), a anorexia é marcada por restrição alimentar persistente, medo intenso de ganhar peso e alteração significativa da percepção corporal. É uma condição multifatorial com origens biológicas, emocionais, socioculturais e psíquicas.

Clinicamente, caracteriza-se por:

  • Restrição alimentar severa, que leva a perda de peso acentuada
  • Distúrbio de imagem corporal, em que a pessoa se percebe como acima do peso mesmo estando abaixo do índice saudável
  • Busca de controle e perfeição, com comportamentos de autoprivação, exercício excessivo ou uso de laxantes e diuréticos
  • Negação da gravidade do quadro, mesmo diante de prejuízos físicos e sociais significativos

A JAMA Review (Attia & Walsh, 2025) aponta que a anorexia apresenta uma das maiores taxas de mortalidade entre todos os transtornos psiquiátricos, tanto por complicações clínicas quanto pelo risco aumentado de suicídio. Além disso, é comum a coexistência de depressão, ansiedade, traços obsessivos e isolamento social, que intensificam o sofrimento e a rigidez.


Um corpo que se recusa a ceder

O psicanalista Jacques Lacan já dizia que “a anorexia não é um não comer, mas um comer nada” (1956-1957). Ou seja, o gesto de recusa não é apenas alimentar — é uma tentativa radical de afirmar limites, de dizer não a um mundo que invade, exige e impõe. O corpo torna-se o território onde se busca controle, identidade e voz.

Esse corpo que recusa o alimento está, na verdade, clamando por espaço — um espaço simbólico, relacional, afetivo. Ivanise Fontes (2010), em Psicanálise do Sensível, lembra que o sofrimento anoréxico nasce muitas vezes da ausência de escuta do corpo sensível, reduzido a imagem e performance, em uma sociedade que mede valor pela aparência.


Consequências físicas e emocionais

A anorexia causa comprometimentos graves à saúde física e mental, incluindo:

  • Desnutrição e comprometimento cardíaco
  • Osteoporose e amenorreia (interrupção do ciclo menstrual)
  • Problemas gastrointestinais e anemia
  • Dificuldades cognitivas, fadiga, irritabilidade e retraimento social

No plano psíquico, há sentimentos intensos de culpa, inadequação e vazio, acompanhados por uma busca incessante de controle. É uma patologia que exige cuidado especializado, já que a pessoa muitas vezes não reconhece o risco real da própria condição.


Caminhos de tratamento e recuperação

O tratamento da anorexia nervosa requer uma abordagem multidisciplinar e especializada, envolvendo psicólogo, psiquiatra e nutricionista.

O foco não é apenas recuperar peso, mas restaurar o vínculo com o corpo, o prazer e o sentido de viver. O trabalho com a anorexia é, acima de tudo, um exercício de presença e escuta. É estar ali, sustentando o vazio, até que ele possa ser preenchido de palavras.


Reencontrar o corpo, reencontrar-se

A recuperação da anorexia é um processo delicado, que exige tempo, paciência e acolhimento. Com ajuda especializada e apoio afetivo, é possível reconstruir a relação com o corpo e com o alimento — não mais como inimigos, mas como partes vivas de uma mesma história.

Se você ou alguém que você ama está enfrentando sintomas de anorexia nervosa, lembre-se: não é uma escolha, é um sofrimento que pede escuta e cuidado.

Até breve 🌿

Publicado por Eduarda Lima

Psicóloga especialista em Transtornos Alimentares e Obesidade | @psicologaeduardalima

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